Se alguém te perguntasse agora, na hora, quem segura as rédeas da sua vida, a resposta ia sair rápido: eu, é claro. Mas espera um pouco antes de fechar essa resposta. Nos últimos sete dias, quantas vezes você disse alguma versão de "não tive escolha", "a culpa foi dele" ou "a vida que me colocou nessa"? Porque tem uma diferença enorme entre dizer que segura as rédeas e ter as mãos de verdade fechadas nelas.
Autorresponsabilidade não é frase bonita pra postar em rede social. É um dos princípios mais difíceis e mais transformadores que existem, e boa parte de quem diz que pratica está, na hora de agir, com as mãos soltas, deixando o cavalo escolher o caminho sozinho e culpando a estrada quando as coisas dão errado.
O que é autorresponsabilidade
Autorresponsabilidade é assumir que você é o principal responsável pelos resultados da sua vida: suas escolhas, suas reações, suas relações, seus hábitos. Isso não quer dizer que tudo o que te acontece é culpa sua. Quer dizer que a forma como você responde ao que te acontece é sempre, sempre, coisa sua.
Isso é libertador e assustador ao mesmo tempo. Libertador porque devolve o poder pra sua mão. Assustador porque tira toda desculpa pronta.
A tentação de culpar
É muito mais confortável culpar. Culpar os pais, o chefe, o parceiro, o trânsito, a infância. E, olha, muita dessas coisas realmente pesa na sua vida. Algumas de um jeito profundo.
Só que, enquanto você culpa, você solta a rédea e entrega a direção pra mão de outra pessoa. Você está dizendo, sem perceber: minha vida é assim por causa dele, então é ele que precisa mudar pra minha vida melhorar. E aí você fica esperando. Esperando o outro mudar, esperando o chefe perceber, esperando o parceiro virar outra pessoa.
Repara como isso soa familiar: "se meu salário fosse melhor, eu não estaria endividado", ou "se ele me entendesse direito, eu não explodiria toda vez". A frase parece verdadeira, e, sendo sincero, até pode ter um pedaço de verdade dentro dela. O problema não é reconhecer que o outro pesa. É parar bem ali, entregar a rédea inteira, e esperar que a vida mude sozinha enquanto você espera do lado de fora.
Você deve estar pensando: mas teve coisa que eu não escolhi. Não escolhi a infância que tive, não escolhi certas coisas que aconteceram comigo. E tem razão: tem coisa que a gente não escolhe mesmo. Só que autorresponsabilidade não pergunta quem colocou a rédea na sua mão. Pergunta o que você faz com ela agora que está segurando.
Autorresponsabilidade é resgatar esse poder. É trocar "isso aconteceu comigo, e a culpa é de fulano" por "isso aconteceu comigo. E agora, o que eu vou fazer a respeito?" A pergunta muda tudo.
Autorresponsabilidade não é culpa
Só que aqui mora uma confusão perigosa, e vale separar bem os dois. Culpa é olhar pro passado e se condenar. Autorresponsabilidade é olhar pro presente e se comprometer.
Você não é culpado(a) por ter tido uma infância difícil. É responsável por buscar cuidado pra ela agora. Você não é culpado(a) por ter aprendido, sem querer, um jeito de reagir que te machuca hoje. É responsável por trabalhar pra mudar esse jeito.
Uma trava, a outra dá o primeiro passo. E é só quando você separa as duas que a autorresponsabilidade para de parecer um peso e começa a parecer o que ela é de verdade: a única saída que depende só de você.
Isso aparece em coisa pequena, do dia a dia. É parar de reclamar do trânsito todo santo dia e sair quinze minutos mais cedo. É dizer "eu escolhi ficar até tarde ontem" em vez de "não tive opção". É perceber que quando você fala "não tenho tempo pra isso", na maioria das vezes está dizendo "isso não é prioridade pra mim agora".
No trabalho, é trocar "a equipe que fez errado" por "o que eu poderia ter combinado diferente com eles". Numa relação que já dura anos e ainda bate na mesma pedra, é trocar "ele nunca muda" por "o que eu ainda faço que alimenta essa briga". Nenhuma das duas perguntas é confortável. As duas movem alguma coisa que "a culpa é dele" nunca vai mover.
O exercício de uma semana
Autorresponsabilidade não se aprende lendo sobre ela. Se aprende flagrando, ao vivo, o momento em que você está prestes a soltar a rédea. Esse exercício pega sete dias e pede cinco minutos por dia, no fim do dia.
Passo 1. Separe um caderno pequeno ou uma nota no celular, só pra isso. Durante sete dias, toda vez que perceber que culpou alguém ou alguma coisa, em voz alta ou só na cabeça, anote numa linha. Não precisa parar o que estava fazendo: é só uma frase rápida. "Culpei o trânsito." "Culpei meu parceiro pelo meu cansaço." "Culpei o chefe pelo prazo apertado." Não se julgue enquanto anota. Só registre.
Passo 2. No fim de cada dia, separe cinco minutos. Releia a sua lista daquele dia. Para cada linha, escreva uma segunda frase começando com "o que eu posso fazer a respeito".
Exemplo preenchido: "Culpei o trânsito por chegar atrasado de novo" vira "o que eu posso fazer a respeito: sair quinze minutos mais cedo, ou avisar antes que posso atrasar".
Outro exemplo: "Culpei meu parceiro por eu estar de mau humor" vira "o que eu posso fazer a respeito: falar o que me incomodou, em vez de esperar que ele adivinhe".
Passo 3. No sétimo dia, reveja a semana inteira de uma vez. Você vai ver um padrão: as mesmas duas ou três pessoas, ou as mesmas duas ou três situações, aparecendo repetidas vezes na sua lista. É ali que está o seu próximo trabalho, não em ficar mais atento à vida em geral.
Se, no meio da semana, você perceber que não anotou nada num dia inteiro, isso não quer dizer que você já segura a rédea o tempo todo. Quer dizer, quase sempre, que você ainda não está pegando o momento no ato. Ponha três alarmes no celular, de manhã, de tarde e de noite, só pra perguntar: até agora, o que eu culpei hoje?
E quando aparecer uma situação em que, sinceramente, não havia nada que você pudesse ter feito diferente, isso existe, e faz parte da vida, a frase muda de forma, mas continua sua: "eu não escolhi isso, mas escolho o que eu faço com isso a partir de agora".
Quem segura as rédeas agora
Ninguém entrega as rédeas prontas na sua mão. Você as pega no dia em que decide segurar, mesmo com a mão tremendo, mesmo sem saber ainda pra que lado puxar.
Autorresponsabilidade não é conquista de um dia só. É prática diária: toda vez que aparecer a chance de culpar, justificar ou esperar que o outro mude primeiro, vai aparecer também a chance de perguntar outra coisa.
Hoje, quando alguma coisa der errado, e vai dar, porque a vida é assim, a pergunta que interessa não é quem tem culpa. É: o que essa situação está me pedindo pra eu fazer agora? Essa pergunta, só você pode responder. As rédeas, no fim, sempre estiveram na sua mão. A questão é só se você está segurando ou deixando soltas.